
O estudo “Energias Renováveis e Pequenos Negócios – Da Transição Global às Oportunidades Locais” produzido pela Unidade de Gestão Estratégica (UGE) do Sebrae Goiás, lançado no evento Energia em Transformação, realizado na noite de quinta-feira, 1º de outubro, na sede do Sebrae Goiás, em Goiânia, além de apresentar um diagnóstico do setor, foi estruturado para apoiar os empresários na tomada de decisões.
De acordo com a analista da Unidade de Gestão Estratégica, Polyanna Marques Cardoso, o estudo trabalha com duas frentes principais que são: ajudar empresas a reduzir custos relacionados à energia e apresentar oportunidades para quem pretende atuar como fornecedor nesse mercado.
“A primeira é mostrar como economizar e reduzir custos relacionados à energia, apresentando possibilidades, caminhos e orientações sobre por onde começar. A segunda é voltada para quem deseja atuar nesse mercado como fornecedor”, explica. Segundo a analista, as informações podem ser utilizadas tanto por quem pretende abrir um novo empreendimento quanto por empresas que buscam ampliar sua atuação. “Pode ser alguém que queira abrir um novo negócio ou expandir uma empresa que já possui. Por isso também apresentamos tendências, novas oportunidades e possíveis desdobramentos de negócios que podem ser desenvolvidos”, afirma Polyanna.
O estudo reúne informações de diferentes fontes, como Agência Nacional de Energia, Empresa de Pesquisa Energética, Federação das Indústrias do Estado de Goiás e Receita Federal. Entre os indicadores analisados estão capacidade instalada, potencial de geração e energia efetivamente produzida.
Polyanna explica que essa diferenciação é importante para compreender com mais precisão o estágio atual do mercado. “Uma coisa é ter uma instalação com capacidade para gerar determinada quantidade de energia. Outra é o potencial auditado, que representa o quanto aquela instalação realmente pode produzir. E existe ainda um terceiro indicador, que é a geração efetivamente realizada. O relatório apresenta e compara esses três indicadores.”
O estudo aponta que ainda existe amplo espaço para crescimento. Goiás apresenta elevado potencial solar, ambiente regulatório consolidado e condições favoráveis à ampliação de investimentos. Além dos cerca de 2 mil GWh de geração solar registrados em 2024, o estado concentra 2,5 MW dos 3,6 MW de capacidade instalada de autoprodução solar comercial de toda a Região Centro-Oeste, demonstrando o interesse crescente das empresas pela geração própria como instrumento de eficiência e competitividade.
Entre as oportunidades identificadas estão serviços de instalação e manutenção de sistemas solares, armazenamento de energia por baterias, consultoria para eficiência e gestão do consumo, aproveitamento de resíduos para geração de energia e biogás, além da implantação e operação de pontos de recarga para veículos elétricos.

Para o gestor do Programa Sebrae Energia do Sebrae Goiás, Jefferson Rodrigues Paes, o levantamento deve ser entendido como uma ferramenta de planejamento para as empresas e não apenas como uma compilação de informações sobre o setor. “O estudo não é apenas um relatório de dados. Ele é uma ferramenta para o planejamento estratégico dessas empresas. Existem várias possibilidades de mercado e de negócios além do que ficou mais conhecido como venda e instalação de placas solares. Hoje o mercado é muito mais amplo”, afirma.
Mercado além dos painéis solares
A transição energética está abrindo espaço para uma série de atividades que ultrapassam a instalação de placas fotovoltaicas. Entre elas estão infraestrutura para veículos elétricos, modernização de instalações prediais, armazenamento de energia, monitoramento inteligente do consumo, eficiência energética e projetos relacionados ao biogás e ao aproveitamento de resíduos.
No segmento da mobilidade elétrica, por exemplo, o levantamento identifica oportunidades para implantação e monetização de pontos de recarga rápida em centros urbanos e rodovias, instalação residencial de carregadores, adequação de condomínios e modernização da infraestrutura elétrica de prédios.
A transformação também ocorre dentro do próprio modelo de geração. A expansão da geração distribuída permitiu o surgimento das chamadas usinas de investimento, nas quais empreendedores implantam unidades geradoras e comercializam créditos de energia para consumidores. Segundo o estudo, esse modelo já está consolidado em Goiás e representa uma nova frente de geração de renda e atração de investimentos.

Sustentabilidade também amplia competitividade
Além das oportunidades relacionadas à redução de custos e à criação de novos serviços, o estudo chama atenção para a relação entre energia renovável, sustentabilidade e posicionamento de mercado. Para Polyanna Cardoso, os impactos da transição energética ultrapassam os benefícios financeiros para as empresas.
“Essa é uma das tendências que destacamos no material: a relação entre os negócios, o meio ambiente e a sociedade. Não se trata apenas de gerar economia ou trazer benefícios para a própria empresa, mas também de produzir impactos positivos para os consumidores e para a sociedade como um todo”, afirma.
Segundo a analista, as práticas sustentáveis também podem ser incorporadas à imagem e à estratégia das marcas. “Uma empresa que é sustentável, que demonstra preocupação com o meio ambiente, que apresenta essas informações nos seus relatórios e comunica essas ações de forma verdadeira aos clientes, tem mais condições de ampliar sua presença e competitividade no mercado”, destaca Polyanna.
Jefferson Paes também ressalta que a transformação energética está conectada à agenda de sustentabilidade das empresas. Para ele, a adoção de fontes renováveis e de práticas de eficiência energética pode contribuir não apenas para a redução de custos, mas também para o posicionamento dos negócios. “A empresa transforma isso também em uma estratégia de mercado e de diferenciação, trazendo a pauta da sustentabilidade para dentro do negócio. Isso vale para qualquer empreendimento, seja uma padaria ou uma lanchonete”, explica.
Segundo o gestor, empresas que incorporam fontes renováveis e práticas sustentáveis podem reunir diferentes vantagens competitivas. “A empresa ganha em várias frentes: gera energia renovável, economiza energia, pode faturar com novos modelos de negócio e ainda fortalece sua imagem como empresa sustentável”, afirma.
Outro aspecto do estudo destacado por Jefferson é a dimensão da participação das micro e pequenas empresas no ecossistema energético goiano. O levantamento identificou cerca de 22 mil empresas ativas relacionadas à cadeia de energia no estado, incluindo negócios de instalação, manutenção e outras atividades relacionadas ao segmento.
“Não são as grandes empresas que estão assumindo sozinhas o papel da transição energética. As pequenas empresas têm um papel gigantesco. Cada pequeno passo dado pelas micro e pequenas empresas e pelos MEIs é muito relevante”, afirma. Segundo ele, o fato de 91% das empresas identificadas serem MEIs ou microempresas evidencia o protagonismo desse segmento. “Somadas, elas representam 91% desse mercado. São elas que estão impulsionando cada vez mais a adoção da energia renovável e contribuindo para o crescimento desse setor no estado.”
Infraestrutura ainda é desafio
Durante o primeiro semestre dez empresas do setor energético participaram de uma consultoria individual, com aproximadamente 400 horas de acompanhamento, e a conclusão foi apresentada no Energia em Transformação.

O acompanhamento foi realizado pela consultora Michele Swistalski, que desenvolveu, especialmente para o projeto, a metodologia ENERGIA, acrônimo formado por sete eixos: Estratégia, Nível de maturidade, Engenharia de soluções, Rentabilidade, Geração de valor, Inovação e Acompanhamento. Ao longo da jornada, as empresas passaram por avaliações de maturidade, revisão de processos, estruturação comercial e financeira e análise de novas oportunidades. Também foram elaborados planos de ação com horizonte até 2029, estabelecendo etapas para o crescimento sustentável dos empreendimentos.
E, mesmo com o cenário de crescimento, o desenvolvimento do setor também enfrenta gargalos. Para Michele, um dos principais desafios está na modernização da infraestrutura elétrica brasileira, incluindo redes, cabos, transformadores, linhas e demais estruturas necessárias para acompanhar o aumento da geração e do consumo.
Segundo a consultora, parte da infraestrutura existente foi projetada para uma realidade energética diferente da atual e, em algumas regiões, já existem dificuldades para absorver volumes maiores de geração distribuída. Ela destaca que a questão ultrapassa uma distribuidora específica e envolve planejamento energético e investimentos estruturais em escala nacional.
Na avaliação da consultora, enquanto a modernização da rede depende de políticas públicas e investimentos de maior porte, empresas do setor podem contribuir com soluções descentralizadas, como geração distribuída, energia por assinatura, pequenas centrais de geração, eficiência energética e outras alternativas capazes de reduzir custos e ampliar a segurança energética dos consumidores.
Para Michele, o fortalecimento do setor também depende de colaboração entre os próprios empresários e da articulação com instituições públicas e entidades representativas. “Quanto mais forte for o setor, mais fortes todos nós ficamos”, afirma.
A visão acompanha uma das conclusões centrais do estudo do Sebrae Goiás. A transição energética já produz efeitos sobre competitividade, eficiência e desenvolvimento regional e cria duas grandes frentes para as micro e pequenas empresas — a adoção de tecnologias para reduzir custos dentro dos próprios negócios e a oferta de novos produtos e serviços para um mercado energético cada vez mais descentralizado, tecnológico e diversificado.
Principais números e tendências do estudo
- 37% foi o crescimento da produção de eletricidade em Goiás entre 2023 e 2024, diante de 14% no Centro-Oeste e 6% no Brasil;
- Goiás gerou aproximadamente 2 mil GWh de energia solar em 2024;
- O estado possui 22.090 empresas ligadas à cadeia da energia solar;
- 91% dos negócios da cadeia solar em Goiás são MEI ou microempresas;
São 13.469 empresas de instalação e manutenção elétrica e 6.335 de serviços de engenharia ligadas aos segmentos analisados; - Quase metade das empresas do segmento está em estágio inicial de desenvolvimento, indicando um mercado ainda em processo de consolidação e com espaço para ganho de maturidade;
- A matriz elétrica goiana tem forte presença de fontes renováveis, com predominância da geração hidrelétrica e expansão gradual da solar e da biomassa;
- Entre as oportunidades para pequenos negócios estão armazenamento de energia, eficiência energética, consultoria e gestão do consumo, manutenção de sistemas solares, biogás e infraestrutura para veículos elétricos;
- O estudo identifica uma tendência de mercado cada vez mais descentralizado, digital e integrado, no qual consumidores também passam a produzir e administrar sua própria energia.
- O estudo pode ser baixado no Observatório Sebrae: https://www.sebraego.com.br/observatorio-sebrae/
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