Ter o próprio negócio deixou de ser apenas uma alternativa de renda para se consolidar como um projeto de vida no Brasil. Em 2025, o empreendedorismo registrou o maior crescimento entre todos os sonhos pesquisados pela Global Entrepreneurship Monitor (GEM), ultrapassando desejos historicamente associados à estabilidade e ao consumo, como viajar, comprar um carro ou construir carreira no setor público.

Pela primeira vez em treze anos de levantamento, o sonho de “ter o próprio negócio” foi o item que mais avançou no ranking de aspirações do brasileiro. Saltou de 34% para 40% da população adulta em apenas um ano, crescimento de seis pontos percentuais, o maior entre os onze sonhos analisados pela pesquisa. O dado fez o empreendedorismo voltar à segunda posição entre os principais sonhos do país, atrás apenas da casa própria.
O levantamento faz parte da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2025, considerada o maior estudo sobre empreendedorismo do mundo. No Brasil, a pesquisa é realizada há 26 anos — desde 2000 — e, a partir do ciclo de 2022, passou a ser conduzida pela Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (Anegepe), em colaboração com o Sebrae. Nesta edição, foram ouvidos 2.350 adultos brasileiros entre junho e agosto de 2025, dentro de uma amostra que envolveu 53 países.
Em números absolutos, o desejo de empreender mobiliza hoje 42,5 milhões de brasileiros que ainda não possuem negócio aberto, mas pretendem abrir uma empresa nos próximos três anos. O contingente coloca o Brasil como o segundo maior país do mundo em número de “empreendedores potenciais”, atrás apenas da Índia, com cerca de 150 milhões de pessoas nessa condição, e à frente de Estados Unidos, Egito e México.
Quando o dado é analisado proporcionalmente, o Brasil aparece entre os países com maior disposição empreendedora — 45% dos brasileiros que ainda não empreendem afirmam que desejam abrir um negócio nos próximos três anos.
Da sobrevivência ao projeto de vida
A leitura da pesquisa sugere uma mudança importante no perfil do empreendedorismo brasileiro. Em 2017, apenas 18% da população citava ter o próprio negócio entre seus principais sonhos. O país atravessava uma forte recessão econômica e boa parte dos empreendedores surgia pressionada pela falta de emprego e renda. Já em 2020, durante a pandemia, o índice disparou para 59%, em um cenário marcado pela instabilidade econômica e pela necessidade de geração imediata de renda.
O ambiente de 2025 é diferente. Com o mercado de trabalho mais aquecido, os indicadores mostram uma mudança gradual na motivação de quem decide empreender. A proporção de brasileiros que afirmam abrir um negócio porque “os empregos são escassos” caiu para 71%, o menor patamar de toda a série histórica da pesquisa. Ao mesmo tempo, cresceu o número de pessoas motivadas pela construção de patrimônio, independência financeira e continuidade familiar.
A motivação ligada à “construção de grande riqueza ou renda muito alta” manteve o recorde histórico, com 69%, enquanto a ideia de “continuar uma tradição familiar” alcançou o maior índice já registrado pela pesquisa, chegando a 46%.
Entre os brasileiros que efetivamente abriram negócio em 2025, 58% afirmaram ter empreendido “por oportunidade”, acima dos 55% registrados no ano anterior. A percepção de ambiente também melhorou: 56% dos empreendedores iniciais disseram acreditar que abrir uma empresa ficou mais fácil do que há um ano, enquanto 47% afirmaram enxergar perspectivas mais positivas de crescimento para o próprio negócio.
O retrato do novo empreendedor brasileiro
A GEM 2025 também ajuda a entender quem está puxando esse movimento. Entre os 26,9 milhões de brasileiros classificados como “empreendedores iniciais” — grupo formado por pessoas com negócios de até três anos e meio de operação —, 60% são homens e 62% se declaram pretos ou pardos, maior proporção dos últimos cinco anos.
O empreendedorismo brasileiro continua fortemente concentrado nas camadas de renda média e baixa. Entre os novos empreendedores, 74% possuem ensino médio ou menos, e mais da metade vive com renda de até três salários mínimos.

Outro dado chama atenção: o avanço dos empreendedores acima dos 45 anos. Hoje, 33,7% dos brasileiros que iniciaram negócios recentemente pertencem a essa faixa etária, a maior participação já registrada pela série histórica da pesquisa.
O movimento sugere a entrada crescente de profissionais mais experientes no empreendedorismo, muitos deles migrando do mercado formal em busca de autonomia, renda própria ou novos projetos de vida.

A participação feminina, porém, recuou. As mulheres representam hoje 39,5% dos empreendedores iniciais, menor percentual desde 2003. O dado indica que, apesar do ambiente mais favorável ao empreendedorismo, o avanço ainda não ocorre de maneira uniforme entre homens e mulheres.
Ambiente melhora, mas gargalos persistem
Além da população, a pesquisa ouviu 55 especialistas em empreendedorismo para avaliar o ambiente de negócios brasileiro. Entre os pontos considerados positivos aparecem a dinâmica do mercado interno, a infraestrutura física e o ambiente cultural favorável a empreender.
No índice NECI, que mede a qualidade do contexto empreendedor, o Brasil avançou da 48ª para a 44ª posição entre os países avaliados nos últimos quatro anos.
Os gargalos, no entanto, permanecem conhecidos: acesso difícil ao crédito para empresas em estágio inicial, custos de entrada no mercado e excesso de burocracia, dificuldade de acesso à tecnologia de ponta e fragilidade da educação empreendedora no ensino fundamental e médio.
Esses fatores ajudam a explicar por que, mesmo com o crescimento do desejo de empreender, a taxa total de empreendedorismo no país recuou de 33,4% para 31,6% em 2025. Na prática, o Brasil continua produzindo mais vontade de empreender do que condições concretas para transformar esse desejo em empresas sustentáveis.
SERVIÇO
Confira a pesquisa:
https://datasebrae.com.br/pesquisa-gem/
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