
Criadores de sete estados se reuniram em Corumbá de Goiás, de 25 a 27 de setembro, para discutir como preservar raças de porcos crioulos e tornar essa criação viável para pequenos produtores. Com apoio do Sebrae Goiás, o III Encontro Nacional de Criadores de Porcos Crioulos contou com cerca de 60 participantes, segundo a organização, e aproximou a experiência no campo da pesquisa acadêmica.

As paisagens do Cerrado, as águas do Salto de Corumbá e o patrimônio histórico da cidade compuseram o cenário do encontro. Nesse ambiente, a preservação das raças suínas crioulas foi discutida em conjunto com o cuidado, com os recursos naturais e a sustentabilidade das propriedades. A proposta foi fortalecer formas de criação que conciliem conservação ambiental e geração de renda para as famílias produtoras.
A cultura local também teve espaço. A interpretação de “Romper da Aurora”, que faz referência ao Salto de Corumbá, emocionou os participantes durante a apresentação musical.

A iniciativa surgiu da articulação entre criadores de diferentes regiões do país, unidos pelo interesse em preservar as raças suínas crioulas. Depois das edições no Paraná e em Minas Gerais, o evento chegou a Goiás. Organizador do encontro, o produtor rural Pedro Henrique de Castro explicou que essa aproximação permite trocar animais entre propriedades, ampliar a diversidade genética dos rebanhos e evitar cruzamentos entre parentes.
“A ideia do encontro foi justamente a necessidade de fortalecer esses criadores e essas raças”, afirmou. Na Bottega Agrícola, sua propriedade familiar, o soro resultante da fabricação de queijos é aproveitado na alimentação dos porcos, integrando as atividades da propriedade.
Para apoiar a participação de criadores e pesquisadores de diferentes regiões, o Sebrae Goiás custeou 23 hospedagens. O encontro recebeu representantes de Pernambuco, Paraíba, Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás.
A Prefeitura de Corumbá de Goiás contribuiu com o transporte dos participantes e as atividades culturais, por meio das secretarias de Agricultura e Cultura. A rede de apoio também incluiu a Emater Goiás, a Associação de Cultura e Defesa do Patrimônio de Corumbá de Goiás, a Universidade Federal de Goiás (UFG), a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e o Instituto Federal de Brasília (IFB).

Para o analista técnico do Sebrae Goiás Lucio Jablonski Junior, responsável pelo atendimento da região, a aproximação entre pequenos produtores e pesquisadores contribuiu para discutir soluções de manejo, gestão e comercialização.
“Ao apoiar a participação dos criadores, de professores e pesquisadores, o Sebrae contribuiu para aproximar o conhecimento técnico da realidade dos pequenos negócios rurais. A proposta foi valorizar a produção local e ajudar o produtor a identificar caminhos para agregar valor ao que produz, com atenção à sustentabilidade.”

Raças adaptadas e manejo sustentável
A pesquisadora Maria Norma Ribeiro, professora aposentada da UFRPE e vinculada à Universidade Federal da Paraíba (UFPB), defendeu a valorização dos animais adaptados às condições brasileiras. Segundo ela, raças comerciais mais exigentes podem demandar investimentos elevados em controle ambiental diante do calor. Por isso, a conservação das raças locais deve ganhar espaço nos currículos de Zootecnia, nas pesquisas e nas políticas de apoio à produção.
Ao relacionar a conservação genética às mudanças climáticas, a professora destacou uma característica desses animais: “Essas raças têm potencial adaptativo, resiliência, para todo esse panorama das mudanças climáticas que nós estamos enfrentando”.
Na abertura, após o painel sobre sistemas integrados de produção, alguns produtores rurais relataram que já adotavam as práticas apresentadas em suas propriedades. Para o engenheiro florestal Pedro Faria, o encontro em Corumbá de Goiás representou a realização de um sonho antigo. Ele afirmou sentir grande emoção ao conhecer experiências que conciliam produção e conservação ambiental e que, em sua avaliação, demonstram a viabilidade dos sistemas agroflorestais.

Seleção e transformação da produção
O pecuarista e selecionador Paulo Leonel, do Grupo Adir, levou ao encontro a experiência desenvolvida na Fazenda Barreiro Grande, em Nova Crixás. Criador de porcos carunchos, explicou que a seleção começa pelo biotipo desejado e considera o desempenho das mães, como a quantidade de leitões e a capacidade de criar os filhotes.
“Eu trabalho tudo em sinergia com a natureza, observando o animal, observando tudo”, afirmou. Na palestra, defendeu a definição de um padrão a partir das características observáveis dos animais, o fenótipo, e a fidelidade a esse padrão na seleção.
Leonel também apresentou um sistema de gestão que considera adaptável a propriedades de diferentes tamanhos. Destacou o aproveitamento dos recursos disponíveis na propriedade e a seleção dos animais com base em critérios objetivos, sem apego emocional. Ao abordar a rentabilidade, apontou a transformação dos produtos como estratégia para agregar valor, em vez de limitar a comercialização aos produtos in natura.

Pequenos criadores e acesso ao mercado
De Rio Negro, no Paraná, Dyego Henrique Schelbauer percorreu cerca de 1.500 quilômetros para participar. Engenheiro florestal e pequeno produtor, cria porcos da raça moura há mais de dez anos e adota o sistema semi extensivo: os animais ficam soltos durante parte do período e depois são recolhidos, conforme as necessidades do manejo.
O manejo, explicou, busca evitar que a criação comprometa o solo e a vegetação. “Em uma área reduzida, ele vai degradar o solo. Ele vai comer todas as plantas”, observou. O criador comercializa carne em Foz do Iguaçu, com apoio de um frigorífico parceiro, alcançando um mercado além de seu município.
O organizador do evento Pedro Henrique apontou a dificuldade de encontrar estruturas de abate compatíveis com o volume dos pequenos criadores em Goiás como um dos obstáculos para ampliar o acesso ao mercado. O organizador defendeu abatedouros de menor porte e regularização sanitária como caminhos para agregar valor à produção e alcançar novos compradores.

Ainda na sexta-feira (25), foram realizadas uma oficina de melhoramento genético participativo e uma roda de diálogo sobre valorização e comercialização de produtos, selos de inspeção e mercados.
No sábado (26), os participantes acompanharam atividades de caracterização do porco piau na Bottega Agrícola e na Fazenda Vendinha, além de visitas culturais. No domingo (27), o grupo conheceu a Fazenda Mutum, onde foram realizadas atividades técnicas e de pesquisa da raça nilo, com a participação de criadores e da Embrapa.
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