O último dia da Semana da Moda Goiana, nesta sexta-feira (29), no auditório da Fieg, em
Goiânia, foi marcado por um talk com tema “Da Passarela à Indústria: o que move a moda hoje”, com o estilista Alexandre Herchcovitch, referência internacional que projetou a moda brasileira para o mundo. Alunos, professores, estilistas goianos, profissionais do segmento e empresários estiveram presentes para ouvir aquele que é reconhecido por transformar roupas em manifestações culturais e inovação na estética nacional.
Ele relembrou o início da trajetória, quando ainda criança aprendeu a costurar com a mãe e transformar ideias em roupas. “A única pessoa que eu queria agradar era eu mesmo”, disse, ao comentar que no começo não pensava em mercado, mas apenas em se expressar por meio da criação. Com o tempo, percebeu que precisava unir criatividade e gestão. “O tempo fez eu me aperfeiçoar nessa questão de dar valor para as coisas. Hoje entendo muito bem o valor que tem estar aqui, fazer uma roupa, trabalhar num programa de televisão.”
A carreira de Herchcovitch ganhou força nos anos 1990, quando apresentou coleções que chamaram atenção pela ousadia e pela mistura de referências urbanas, culturais e artísticas e nunca limitadas ao vestuário tradicional. “Meu processo criativo pode começar de várias maneiras, mas com tecidos diferenciados, basta eu tê-los para explorar materiais pouco convencionais, como vinil e borracha”, explicou. A criação e a marca se expandiram também para acessórios, móveis e até parcerias com marcas populares, como Melissa, Chilli Beans e Malwee. Essa versatilidade o tornou um nome presente tanto em passarelas internacionais quanto em colaborações acessíveis ao grande público.
Mais do que um criador de roupas, ele é um pensador do setor, que defende a importância da moda autoral e da identidade própria como diferenciais competitivos, incentivando estilistas a colocarem sua vivência nas peças. Um dos momentos mais icônicos de sua trajetória foi o vestido usado por Gisele Bündchen na abertura das Olimpíadas Rio 2016, que consolidou sua imagem como criador de peças memoráveis.

Atualmente, Alexandre Herchcovitch é visto como um símbolo da moda brasileira contemporânea, alguém que une criatividade, autenticidade e gestão, e que continua inspirando novas gerações de estilistas a acreditarem que moda é mais do que consumo: “É expressão, cultura e identidade”. Durante o bate-papo, Alexandre ressaltou experiências pessoais e profissionais, destacando a importância da autenticidade e da inovação para quem deseja construir uma carreira sólida no setor.
Herchcovitch também falou sobre a relevância da moda autoral e da identidade própria para estilistas fora dos grandes centros. “Se você quer ser um estilista ou uma marca que tem voz e que se diferencia das outras de fato, você tem que colocar no seu trabalho características que só você tem, características de autor”, afirmou. Para ele, a moda goiana tem potencial de se consolidar como polo criativo, já que conta com uma indústria forte e talentos locais despontando.
Ao ser questionado sobre o consumo acelerado e o fast fashion, Alexandre destacou que há uma mudança em curso que pode ser benéfica para a moda circular e sustentável. “As pessoas começaram a pensar que em vez de eu comprar dez peças de R$ 69, vou comprar uma de R$ 690 e aí eu tenho ela mais tempo, porque eu estou cansado da roupa descartável”, exemplificou. Em relação aos pequenos negócios, o estilista também ressaltou que é possível fazer moda em qualquer escala: “Moda você pode fazer independentemente do tamanho que você é. Se você tem a ideia e tem como executar, não importa se você é pequeno, médio ou grande, até porque quase todas as marcas nasceram pequenas e foram tomando forma e estilo com o passar do tempo”, disse.
Moda em Goiás: números e estratégia
Segundo dados do Sebrae Goiás, o segmento de confecção é o segundo maior empregador da indústria de transformação no estado. Em 2025, havia 84.929 CNPJs ativos de moda em Goiás, com crescimento de 30,69% em relação a 2020. Os atendimentos do Sebrae ao segmento aumentaram 270,72% no mesmo período.
A estratégia estadual está consolidada em três eixos: moda autoral, indústria têxtil e varejo, com foco em capacitação, produtividade e acesso a mercado. Entre as dimensões trabalhadas estão inovação, sustentabilidade, economia circular e integração de pequenos negócios a grandes varejistas.
O projeto Amarê Fashion, lançado em 2022, tornou-se uma plataforma que conecta cultura, negócios e identidade, fortalecendo marcas e empreendedores locais. Mais que um evento, é um movimento que une capital e interior, tradição e futuro, impulsionando uma moda organizada e competitiva.
A força dos marketplaces

A programação do último dia da Semana da Moda Goiana foi diversa e o público pode acompanhar um Painel sobre sustentabilidade e economia circular, que discutiu práticas de reaproveitamento de materiais e novos modelos de negócios; Workshop de inovação em tecidos e design: com foco em tecnologia têxtil e desenvolvimento de produtos exclusivos.
O empresário Bruno Garra, a segunda palestra do dia, contou durante a Semana da Moda Goiana, como a entrada no universo digital mudou radicalmente a realidade de sua empresa e de sua família. Vindo do interior do Pará, ele iniciou sua trajetória empreendedora ainda criança, vendendo geladinho no mercado central de Altamira. Mais tarde, em Goiânia, trabalhou em confecções e passou por todos os setores da produção até decidir abrir sua própria marca em 2010.
Segundo Bruno, o ponto de virada veio com a pandemia, quando o comércio físico foi paralisado e o digital se tornou a principal alternativa de vendas. “Se nós não estivermos no digital de agora para frente, a tendência é essa: ou você quebra e deixa de existir, ou você expande seu nome, sua marca e se perpetua por mais tempo no mercado”, afirmou. Ele destacou a importância dos marketplaces e das redes sociais como canais de venda e lembrou que sua empresa chegou a ser reconhecida como a número um nacional de moda na plataforma Shopee em 2024.
Para o empresário, a presença digital não é mais uma opção, mas uma necessidade tanto para o varejo quanto para a indústria. “Estar no digital foi o que salvou a minha empresa e mudou a realidade da minha família”, disse. Bruno reforçou que marcas que não se posicionarem nos diversos canais disponíveis correm o risco de se tornarem invisíveis no mercado atual.
Internacionalização da moda

O especialista e consultor de Comércio Exterior da Fieg Flávio Falcão, reforçou que a expansão internacional das marcas exige planejamento estratégico e estudo aprofundado dos mercados-alvo. Ele explicou que não basta apenas ter um bom produto. É necessário avaliar critérios socioeconômicos, geográficos, logísticos, comerciais, culturais e políticos antes de definir para onde exportar. “Não podemos ficar no achismo. Muitas vezes você investe tempo e dinheiro em um mercado que parece adequado, mas o estudo mostra outra realidade”, afirmou, lembrando o caso de uma empresa brasileira que tentou vender esponjas de aço nos Estados Unidos sem perceber que o produto não fazia parte da rotina doméstica local.
Falcão também destacou a importância de ferramentas práticas para a prospecção internacional, como sites estruturados em inglês ou espanhol, catálogos traduzidos e presença em plataformas B2B. Além disso, ressaltou o papel das feiras e rodadas de negócios como espaços de aprendizado e de contato com tendências globais. Para ele, o posicionamento internacional da marca e o networking com instituições como Sebrae, Fieg e embaixadas brasileiras são fundamentais para garantir competitividade. “Estar no meio, ter acesso às missões e às consultorias, aumenta muito as chances de sucesso”, concluiu.
IA e sustentabilidade como desafios
Especialistas também discutiram como a tecnologia e a sustentabilidade podem transformar o setor de confecção no Brasil. A palestrante foi a especialista em tecnologia e inovação na indústria da moda, com atuação em projetos voltados à indústria 4.0 e 5.0, Caroline Cardoso Mesquita. Ela destacou que a moda nacional ainda enfrenta uma falta de investimento federal para modernizar o parque industrial, o que limita a adoção de práticas inovadoras pelas pequenas e médias empresas, responsáveis pela maior parte da produção. Caroline ressaltou que países asiáticos avançaram em processos industriais desde os anos 1980, mas o Brasil continua com baixa participação em exportações de alta tecnologia, focando principalmente em produtos primários como agricultura e mineração.
O debate trouxe também uma análise sobre as revoluções industriais 4.0 e 5.0. A quarta revolução, iniciada na Alemanha, é marcada pela automação, internet das coisas, inteligência artificial e robótica, com foco em processos produtivos inteligentes e interconectados. Já a quinta revolução, surgida no Japão, enfatiza a colaboração entre humanos e máquinas, promovendo personalização em massa e maior participação criativa do trabalhador. No setor da moda, isso significa aplicar IA em processos como análise preditiva de erros, recomendação de produtos e automação de produção, além de enfrentar desafios como segurança cibernética e qualificação da mão de obra.

A palestra concluiu que o futuro da moda brasileira depende de fomento público, capacitação profissional e abertura dos empresários tradicionais para novas tecnologias, além da realização de mais eventos voltados à indústria. Foi lembrado que em 2024 o governo federal anunciou o programa Nova Indústria Brasil, que prevê investimentos em modernização e sustentabilidade, incluindo o setor de confecção.
Temas centrais da Semana
Durante os quatro dias de evento, os debates abordaram macrotendências da moda digital, inovação tecnológica na indústria têxtil, inteligência artificial aplicada ao varejo, e estratégias de sustentabilidade. Palestrantes e especialistas discutiram como o avanço das ferramentas digitais e o comportamento do consumidor estão redefinindo o modo de criar, produzir e vender moda. A integração entre ciência, mercado e criatividade foi apontada como essencial para gerar valor e competitividade.
Outro destaque foi o foco na moda autoral e identidade regional, tema que permeou diversas mesas e painéis. A valorização da cultura goiana, o fortalecimento das confecções locais e o incentivo à economia criativa mostraram que o estado está preparado para se posicionar como referência nacional. A Semana também reforçou a importância da formação de novos profissionais e da conexão entre marcas, indústria e varejo, consolidando Goiás como um território fértil para inovação e expressão artística.

INFORMAÇÕES PARA A IMPRENSA
Na sede do Sebrae: Taissa Gracik – (62) 99887-5463 | Kalyne Menezes – (62) 99887-4106
Na Regional Central | Goiânia: Agência Entremeios Comunicação / Adrianne Vitoreli – (62) 98144-2178
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